O tal do rodo cotidiano (conto)
Uma tragédia que ecoa o desespero de um povo silenciado.
Em pleno coração do Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão, um menino de dez anos é assassinado por um tiro de fuzil. Acontece à luz do dia, durante mais uma operação da Polícia Militar. Na porta de casa, onde ele deveria estar seguro, estava Eduardo de Jesus Ferreira, filho de Maria, Terezinha Maria de Jesus, cujos gritos ecoaram sem resposta.
Às vésperas da Páscoa, esse crime no "cartão-postal" do Brasil não chocou o país. A cerimônia da Sexta-Feira da Paixão foi cancelada na favela; havia dor demais para celebrar. E no domingo de Páscoa, para o menino Jesus, que sonhava em ser médico e engenheiro, não haverá ressurreição nem chocolates. Em vez disso, restaram as lágrimas e as flores dos que, em procissão silenciosa, marcharam vestidos de branco, com o coração transbordando por justiça.
A tragédia até passou na TV, mas foi resumida a míseros dois minutos de transmissão. Dois minutos de dor crua que serviram mais para o ibope do que para a dignidade. No horário do jantar, enquanto muitos ignoravam, as imagens silenciosamente reforçavam um padrão: o sofrimento alheio, consumido em um piscar de olhos, sem uma palavra a mais, sem um segundo extra.
No dia seguinte, o que se ouviu nas ruas e redes sociais foi o coro sádico dos que pedem silêncio ao sofrimento: "vitimistas!", "onde estão os protestos pelos policiais?", "era vagabundo, com certeza." Os comentários ecoavam, frios e desumanos, como se cada frase fosse um tapa na mãe que ainda chorava a perda do seu filho.
E ali estava ela, essa mãe que ousava chorar pelo filho morto, transformada, pelas vozes indiferentes, em "vagabunda", "aproveitadora", "favelada". Os que perderam um filho são acusados de serem culpados por sua própria dor, enquanto a sociedade insiste em seguir seu roteiro cínico, perpetuando estigmas, alimentando divisões.
Como nossos pais, seguimos repetindo os mesmos gestos, endossando os mesmos discursos, nos apoiando nas mesmas mentiras. Eles são sempre "os outros": eles, os traficantes; eles, os jovens de pele escura; eles, os estudantes da favela. E a gente, observando de longe, aceita, julga, silencia e reza — porque assim é mais fácil, porque a tragédia dos outros não exige sacrifício, só um olhar desviado.
E assim o menino Eduardo, no seu sonho interrompido, é abafado, esquecido, transformado em mais um número. Sua mãe, uma mulher que só queria dignidade, torna-se alvo de desprezo. Enquanto isso, seguimos, repetindo o ciclo, até que outro nome surja, outro grito se perca, e a história, mais uma vez, seja enterrada no silêncio.