o Silêncio Onde Eu Me Encontrei

O Silêncio Onde Eu Me Encontrei

(por um homem que abandonou o mundo para se reencontrar na natureza)

Eu não fugi. Eu me dissolvi.

Por anos, vivi na ilusão do necessário: a carreira que me moldava como barro seco, as telas que piscavam com promessas de pertencimento, as vozes que falavam alto, mas não diziam nada. Era como caminhar num mercado de almas onde todos negociavam aparências. E eu também negociei a minha.
Aos poucos, perdi o som da minha própria essência. E quando não conseguia mais escutar a mim mesmo, decidi ir embora.

Não por desespero. Mas por um chamado.
Uma semente em mim — silenciosa, paciente — queria germinar. Ela não suportava mais os ruídos, as notificações, os julgamentos travestidos de opinião. A tecnologia não era o inimigo. Era apenas o espelho. E o que eu via refletido era uma humanidade intoxicada pela pressa, pela comparação, pela necessidade constante de validação.
A maldade não era mais exceção — era padrão. E a compaixão? Uma lembrança tênue, quase mitológica.

Então caminhei para longe.
Não para o fim do mundo, mas para o começo de mim.
Encontrei a floresta. Ou talvez, foi ela quem me encontrou.


No início, tudo em mim ainda era barulho. Os pensamentos gritavam como crianças sem colo. Eu queria respostas, como todos querem. Mas a floresta me deu silêncio. E o silêncio foi o meu primeiro mestre.

Descobri que o tempo aqui não se move em linhas — ele dança em círculos. O amanhã não tem pressa. O agora é vasto.
As árvores não competem entre si. Elas crescem juntas.
Os rios não correm de algo — eles fluem com algo maior.
O céu não é um teto. É um lembrete de que há mais.

Lições chegaram sem palavras.
Certo dia, vi uma cobra trocar de pele. Entendi ali: não se cresce sem deixar algo para trás.
Em outro, observei a paciência de uma semente no escuro — dias e dias sem luz, até finalmente brotar. Percebi: a vida não premia o imediatismo. Ela honra os que confiam no invisível.


Com o tempo, comecei a sentir o que antes só compreendia intelectualmente: que somos feitos da mesma substância que o mundo tenta nos distrair.
O ego, que no mundo lá fora era armadura, aqui era prisão.
A comparação, que antes me empurrava, agora me paralisava.
A raiva, tão justificada nos noticiários, aqui era um veneno que eu mesmo bebia.

Descobri também que a maldade humana é contagiosa... mas a compaixão também é.
No isolamento, não virei santo. Vi meus demônios com mais nitidez. Mas também vi minha luz, sem precisar acendê-la para que outros vissem.
Comecei a curar não por tentar consertar, mas por aceitar.


Houve um dia em que uma pedra me ensinou a lição mais valiosa.
Eu a carregava sem motivo — talvez por hábito. Um símbolo do mundo de onde vim: carregar o que não serve mais.
Deixei-a cair. E o som foi libertação.
Ali, compreendi: nada é leve quando mantido além da hora certa.


Hoje, anos depois, o mundo me procura às vezes. Pessoas que vêm com olhos cansados, perguntas angustiadas, expectativas silenciosas. Querem saber o que encontrei.
E eu respondo:

— Não encontrei nada. Me encontrei.
Mas o “eu” que encontrei não é o mesmo que partiu.
É mais leve. Mais vasto. E paradoxalmente, menos “eu”.

A natureza não exige que você se defina. Ela apenas convida você a lembrar.

Lembrar que a vida não é corrida, é dança.
Que o valor não está na visibilidade, mas na verdade.
Que o amor não se prova — se vibra.


Se você está lendo isso, talvez já sinta o chamado.
Não precisa partir como eu. Mas precisa parar.
Parar o ruído. Parar o personagem. Parar a pressa.

Porque há um lugar dentro de você que não esqueceu.
Um silêncio que não foi contaminado.
Uma clareza que não precisa ser ensinada, apenas lembrada.

E quando você encontrar esse lugar — seja na floresta, no deserto, ou num instante entre dois suspiros —
você também saberá:

a paz não é um destino,
é uma lembrança antiga,
esperando você voltar.

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