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Mostrando postagens de novembro, 2024

Pam, Pam...

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Vi-te, e a madrugada cedeu seu véu, o lume do sol tomou o céu escuro, não havia tempo, só o instante, tua figura quieta desfez a noite. O ar era mais leve que o sonho, mas pesado com o que não ouso dizer. E eu, perdido entre o sono e o dia, tornei-me mais vivo que antes.

O Preço do Silêncio (conto)

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Quando Ricardo acordou naquela manhã, o céu estava encoberto, como se o tempo compartilhasse do peso que ele sentia no peito. Mais um dia para limpar os destroços da própria vida. Ele tinha aprendido cedo que família é como ferro: pode te sustentar ou te cortar fundo demais. E nos últimos dois anos, os cortes tinham sido profundos. Ele confiara no irmão mais velho, Augusto, e na prima Ana, como se fossem extensões dele mesmo. Cresceram juntos, riram juntos e, por anos, conspiraram contra o mundo em conversas cheias de sonhos. Até que o dinheiro entrou na equação. Ricardo tinha uma pequena empresa de importação. Não era milionário, mas fazia a vida com honestidade. Augusto, que sempre teve a fala mansa e a lábia de um pastor em horário nobre, convenceu-o a expandir os negócios. "Família é tudo, Ricardo. Se não formos nós para cuidar um do outro, quem será?" Ana, com sua risada fácil, apoiava tudo, sempre com um elogio na ponta da língua. Dois anos depois, ele estava falido. Nã...

Minhas Linhas

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Se escrevo sobre você, meu bem, não se engane – meu diário é outro. Faço poesia do que é meu, do que se fragmentou, transformo cacos de emoções espatifadas. Limpo meu peito a cada estrofe, e saiba, anjo, tudo o que lê de mim é um pedaço quebrado que sai, e nas minhas linhas, tento alcançar a beleza que um dia eu vivi.

Até Breve

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Preciso de espaço, vozes demais, Não pergunte, sem mais palavras. Já ouvi demais, e já pesa demais. Me deixa ter seu silêncio, só coisas como preço do pão. Não me espere, hoje não vou ouvir, Não quero ser rude com seus planos, e não quero estar neles. Me ajuda com mapa, da leveza que perdi, Vem fugindo de mim, com sua voz de aliada. Promessas demais, Vejo sem entrar nas portas de vidro, O caminho quieto, e de novo, meu velho cansaço sem urgência. Deixe que eu vá em silêncio, O tempo longe passará depressa,  novamente. Vou virar um pouquinho parte de nada, A chama que me queimava, apagou. Vou com meu passo, volto logo, sem pressa. Para as vozes até breve, meu breve.

Ás De Copas

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Desde o começo, você sabia, eu deixei claro o que queria, confiava porque era a regra, você sabia – cedeu, seguimos. Mas conhecia cada linha do meu pensamento, todos os becos onde me perdi e me achei. Fui aberto demais, você sabe o que sinto até hoje, mas sempre se guarda – e por quê? Cansei de esperar alguma verdade tua, de te conhecer no fundo do que você barreira. Esse teu jogo de fantasia é coisa tua, um luxo barato pra ver quem perde a cabeça. Fazendo do amor um campo de emboscada, era sempre difícil cada jogada. E eu, caindo por absurdos, passo a passo, já tentei entender muito – no fim optei pela minha sanidade, o que restava dela. Perdi a conta de quando disse pra parar, de quando avisei do limite na linha, de quanto tentei conversar, resolver, me magoar. Tua boca prometia com lindoas palavras, mas não conseguia mais ouvir, as atitudes falaram mais alto, O limite de engulir mentira disfarçada de linha fina. Então, olha pra mim e responde – e responde direito: quem é que mente? ...

Grandes e Pequenos Gestos (conto)

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Olha, meu amigo, depois de tantas idas e vindas com o mesmo tipo de garota – aquela mais quieta, com jeito tímido, inteligente, reservada – estou começando a perceber um padrão que talvez me sirva de lição. A gente, tão seguro de si, cheio de confiança, acaba subestimando o poder de quem sabe nos desarmar sem precisar de grandes gestos. É como se essas pessoas com baixa autoestima, que aparentam fragilidade, soubessem exatamente como nos envolver, nos atrair, para depois nos prender em um emaranhado de emoções. Parece até uma espécie de armadilha que eu mesmo aceito entrar, seduzido. Há algo de intrigante em sentir esse tipo de atração, mesmo que, lá no fundo, eu perceba que estou me enganando. É como se eu estivesse querendo ser iludido, me convencendo de que tudo aquilo faz sentido, quando na verdade são apenas ilusões e jogos de aparências. Ela não precisa de grandes traições ou gestos explícitos para me confundir. Com uma tranquilidade surpreendente, consegue me fazer duvidar de mi...

Um Toque

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Troca os sapatos comigo, ou divide o par. Eu te mostro um amor absurdo, lágrimas sinceras que te envolvem, como verdades difíceis de engolir. Desconhecemos certas dores, algumas, até inventadas; mostra-me como esboça isso. Um pouco de dor ao contrário, não dita, a intensidade que anima os maníacos do fogo, possibilidades impensáveis, carinhos imaginados, pecados lascivos. Toca-me um pouco, quero sentir tua humanidade, o conforto imposto, a satisfação vulgar, os segredos que não confessa a ninguém, teu jogo de pele, teu ar de superioridade, tua autoestima marcada, teu carinho dosado, teu lado obscuro, perverso. Troca comigo o sabor, nosso desejo partilhado. Ensina-me a sentir teu prazer, a reproduzir o que te impulsiona ao fundo de mim. Quero desvendar teu funcionamento, e te oferecer o que me contagia, sair da jaula ao teu lado. Sou teu vampiro e amante, teu brinquedo e curioso.

O tal do rodo cotidiano (conto)

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Uma tragédia que ecoa o desespero de um povo silenciado. Em pleno coração do Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão, um menino de dez anos é assassinado por um tiro de fuzil. Acontece à luz do dia, durante mais uma operação da Polícia Militar. Na porta de casa, onde ele deveria estar seguro, estava Eduardo de Jesus Ferreira, filho de Maria, Terezinha Maria de Jesus, cujos gritos ecoaram sem resposta. Às vésperas da Páscoa, esse crime no "cartão-postal" do Brasil não chocou o país. A cerimônia da Sexta-Feira da Paixão foi cancelada na favela; havia dor demais para celebrar. E no domingo de Páscoa, para o menino Jesus, que sonhava em ser médico e engenheiro, não haverá ressurreição nem chocolates. Em vez disso, restaram as lágrimas e as flores dos que, em procissão silenciosa, marcharam vestidos de branco, com o coração transbordando por justiça. A tragédia até passou na TV, mas foi resumida a míseros dois minutos de transmissão. Dois minutos de dor crua que serviram mais para o...