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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

O Homem Que Conversava com a Chuva

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A primeira vez que ele apareceu em minha porta estava chovendo. Não uma chuva comum, mas daquelas insistentes, finas, que parecem não cair do céu — parecem subir da terra, como se o próprio chão estivesse devolvendo algo que não consegue mais guardar. Ele não se apresentou. — O senhor escuta? — perguntou, antes mesmo de sentar. Observei seus olhos. Não estavam perturbados. Estavam exaustos. — O quê? — perguntei. — A chuva. Fiquei em silêncio por alguns segundos. — Sim. Estou escutando. Ele balançou a cabeça. — Não essa. A outra. Chamava-se Augusto. Quarenta e poucos anos, empresário conhecido na cidade, homem respeitado. Mas o respeito social nem sempre é reflexo de paz interior. Contou-me que, havia meses, sempre que chovia ele ouvia vozes misturadas ao som da água. Não eram frases claras. Eram murmúrios, como se várias pessoas conversassem ao mesmo tempo, sem permitir que ele entendesse nada. — Eu não sou louco — disse com firmeza, quase desafiando minha expressão. — Eu não disse que...

A Casa Onde Ninguém Dormia

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A primeira vez que ouvi falar daquela casa foi numa tarde abafada, quando o céu parecia baixo demais para quem já carregava peso suficiente nos ombros. — Dizem que lá dentro ninguém consegue rezar — comentou o homem à minha frente, os dedos trêmulos segurando o chapéu amassado. — Minha esposa tenta… mas as palavras travam. Meu filho não entra mais no próprio quarto. Não era a primeira história assim. Nunca é. Mas havia algo diferente na maneira como ele evitava olhar diretamente para mim — não era apenas medo da casa. Era medo do que poderia ser revelado. — E o senhor? — perguntei com calma. — Consegue permanecer lá dentro? Ele demorou a responder. — Eu… fico. Mas não fico sozinho. Não explicou o que queria dizer. Não precisava. Eu já conhecia aquele tipo de presença: não necessariamente um espírito, mas algo alimentado pelo silêncio, pela culpa, por sentimentos não resolvidos. Aceitei ir naquela mesma noite. A casa ficava afastada da cidade, cercada por árvores que pareciam sussurrar ...

Sombras e encruzilhadas

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Não foi meu nome que enfrentou a escuridão — foram os caminhos que atravessei. Houve uma noite em que bati à porta de uma casa antiga, chamada apenas para “ver o que estava acontecendo”. A família dizia ouvir passos no corredor, portas abrindo sozinhas, sussurros que vinham do teto. Não encontrei fantasmas à primeira vista. Encontrei medo. Um medo antigo, alimentado por brigas, traições, palavras que jamais foram perdoadas. Enquanto caminhava pelo corredor estreito, senti o ar pesar como se tivesse textura. Não era uma presença única — era um acúmulo. Pensamentos repetidos durante anos, mágoas fermentadas, culpas escondidas. A casa não estava assombrada por espíritos; estava saturada de emoções não resolvidas. Ali compreendi que a injustiça não é apenas algo que sofremos — é algo que também produzimos. Trabalhei naquela casa por horas. Orações baixas, imposição de mãos, reorganização do campo energético. Nada espetacular aos olhos externos. Mas ao final, quando o silêncio se assentou c...