Um Homem Melhor (conto)

Ele acendeu o cigarro com as mãos firmes, mas o gesto parecia trêmulo, quase desleixado. Entre o filtro e a primeira tragada, desviou o olhar para a janela. Não havia luar, só a claridade morta dos postes da rua vazia. Sentia uma dor abafada, algo que insistia em agarrar o peito como uma sede antiga. Saudade. Só quem já viveu entende o que é essa presença incômoda, a ponto de tirar a pessoa do próprio eixo.

Aquele encontro havia sido o último, disso ele sabia. Na verdade, sentira isso desde o instante em que ela lhe disse “adeus” pela primeira vez, com a voz mansa de quem não está indo embora de verdade. Anos se passaram, e ele nunca encontrou um jeito de se libertar. O tempo se arrastava como uma sucessão de dias iguais, mas ele ainda a enxergava nas sombras dos outros, num perfume perdido, em cada detalhe das coisas que já não eram dela e ainda assim carregavam algo que ela havia deixado.

Na mesa ao lado da janela, espalhou umas fotografias antigas, amareladas. Olhou uma a uma, como se fossem mapas que lhe mostrariam onde, em qual instante exato, ele havia deixado escapar algo essencial. Percebeu que era inútil tentar identificar o momento. Ele não perdeu o que ela era em um segundo; foi um processo lento, uma erosão de cada promessa, cada riso partilhado. A dor da saudade era essa: não existia um momento preciso para culpar, não existia um culpado específico. Apenas a constatação de que ela estava tão longe quanto uma paisagem que ele visse de uma janela trancada.

Era essa percepção que o feria, como uma lâmina que rasga sem pressa, deixando espaço para o tempo aprofundar a ferida. A saudade não era falta dela, não do jeito que imaginara. Ela era também uma falta dele mesmo, do homem que se tornara ao lado dela e que, no fim, nunca mais conseguiu encontrar sem que ela estivesse por perto. Sentia saudade não só da mulher, mas da sua própria companhia com ela. Aquele homem que ela fazia emergir já não existia, e ele o procurava em cada copo, em cada madrugada sem sono.

Ao lembrar de quando se despediram pela última vez, ele percebeu que havia algo estranho. A saudade trazia não só lembranças, mas também o peso de um engano, como se toda a expectativa que depositara naquela relação tivesse sido uma construção frágil, pronta para desmoronar. Talvez, ele se deu conta, nunca fosse realmente só ela que ele amava. Amava a ideia que ela representava, a ideia de um homem que ele poderia ter sido. E a dor da saudade era a cobrança eterna de algo que ele jamais poderia ter se tornado sozinho.


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