Todas as consequências (conto)
Luís carregava a solidão como um fardo invisível, mas isso não o incomodava. Havia uma espécie de aceitação silenciosa sobre seu papel. Ele resolvia problemas, mas nunca os seus próprios. Andava pelas ruas à noite, como agora, depois de mais uma "consulta espiritual." Naquele trabalho, ele era imbatível. Nenhum espírito o assustava, nenhuma energia o afetava. Sabia o que fazer, como limpar, afastar e até libertar as pessoas de suas próprias amarras invisíveis. Mas nada daquilo servia para ele, ele tinha outro propósito.
Ele estava a caminho de um prédio no centro, um lugar de janelas quebradas e paredes descascadas. Laura, a mulher que o chamara, vivia no 204. Quando ele entrou no apartamento, sentiu de imediato o peso do ambiente, como se algo puxasse sua alma para baixo. Laura o cumprimentou com um sorriso cansado, e ele se acomodou no sofá, preparando-se para ouvir. Sabia que a história dela importava menos do que o silêncio entre as frases, mas precisava ouvir tudo, cada detalhe, para encaixar as peças do quebra-cabeça invisível.
Laura falou do vazio, da falta de sentido, das noites longas e vazias. Ele só ouvia, e a cada palavra, observava o ambiente. Havia algo ali que ele conhecia bem: um espírito, um desses que se alimentam do vazio de alguém e se recusam a partir. Não era o tipo de assombração que se apegam a objetos, fazem vultos ou causam frio, mas uma presença constante, pesada, dominante, quase fundida ao lugar.
Enquanto Laura falava, ele viu a sombra se movendo pelo canto do olho, agarrada a ela, mas invisível a qualquer outro. Ela não sabia, mas carregava a solidão de outra pessoa, alguém que ela conhecera bem, alguém que morrera sem conseguir se desvincular. Luís suspirou, sentindo um leve desconforto. Isso sempre acontecia quando ele se deparava com uma solidão que tinha forma, que era mais do que apenas um estado de espírito, era uma Legião.
Quando Laura finalmente silenciou, ele começou a falar, sem explicar muito, apenas soltando frases que levavam a mulher a enxergar por si mesma e ter um pouco de esperança. Era um jogo sutil, palavras deixadas ao acaso para que ela se tocasse de que a dor que sentia não era totalmente dela. Ele já tinha feito isso tantas vezes que era quase mecânico, mas via, no rosto de Laura, o mesmo choque de compreensão que via em outros. Ela entendeu que o vazio honesto que ela sentia e a consumia não era seu, mas de alguém que a usava e se recusava a deixá-la.
Ao final, ele se levantou. Na porta, Laura agradeceu as instruções, sem saber exatamente porque, apenas com uma expressão de alívio tímido. Luís acenou, e ao dar o primeiro passo para fora, sentiu o espírito tentando agarrar-se nele, como se quisesse escapar com ele. Com um gesto simples, espantou a presença, falando baixo: “Isso é entre vocês, amigo.” Deu as costas, descendo as escadas com calma.
Na rua, o ar frio da noite lhe trouxe um pouco de paz. Luís sabia que, para ele, a solidão era uma constante. A cada pessoa que ajudava, afastava um pouco do próprio vazio, mas era um alívio passageiro. Ele sabia que sua solidão era diferente, era sua maldição, e também sua liberdade. Ele resolvia todos os problemas, menos os seus. Caminhava sozinho, sem vínculos ou promessas ou amarras. Sua curiosidade insaciável era sempre respondida e isso bastava.
Enquanto seguia para o próximo caso, carregava o mesmo peso de sempre, tentando aceitar que a sua solidão era a única coisa que nunca o deixaria.