Rotina de Jarbas (conto)
Eu estava bebendo, como sempre fazia nessa vida complicada. Não aguentava mais meu emprego. Fui para o bar de sempre, aquele onde encontro todas as pessoas que prefiro evitar. Pedi um chope. Ao meu lado, surgiu Marlene, dançando e agindo como se fosse novidade. Marlene... Aquela que, em alguns momentos, foi minha companhia. Mas eu não queria mais aquilo, não queria mais uma relação vazia. Procurava algo que me trouxesse sentido. Foi então que ela se virou e disse:
— Vamos lá pra casa, passar um tempo juntos?
Paguei a conta, ignorei o convite e saí. Andei pelo Rio de Janeiro inteiro, tentando escapar de mim mesmo. Mas logo percebi que estava sendo bobo. No fim, só havia aquele lugar para mim, 24 horas por dia. Voltei ao bar. Marlene me viu e disse:
— Eu te chamei pra ir comigo, o que está fazendo de volta aqui?
Respondi, cansado:
— Marlene, você vive de suas escolhas, e eu respeito isso, mas não estou mais nessa. Não quero mais relações que dependem de conveniências.
Ela me encarou, ofendida:
— Como é que você sabe da minha vida? Quem é você pra me julgar assim? Você passa anos vindo aqui, se aproveitando das situações e ainda quer falar de mim? Eu te conheço muito bem.
Suspirei, derrotado:
— É, Marlene, você tem razão. Eu não tenho nada, e mesmo que tivesse, ninguém se interessaria. Eu só venho aqui para beber e fugir da realidade.
Ela, sem surpresa, perguntou:
— E agora, Jarbas, o que você vai querer?
— Só um tempo para mim mesmo — respondi, antes de sair.
Já era meia-noite quando finalmente voltei para casa. Sozinho. Liguei para Tatiana, uma amiga fotógrafa, uma mulher que eu sempre achei interessante desde os tempos de colégio. Liguei, mas ela não atendeu. Então, liguei para meu melhor amigo, Fabrício. Quando ele atendeu, desabafei:
— Cara, estou sentindo falta de tempos mais simples. O mundo está tão complicado que nem quem faz as coisas mais difíceis tem espaço.
Fabrício respondeu com frieza:
— Eu me mudei dessa vida aí porque não aguentava mais. É por isso que a gente não se vê mais.
— Acho que vou ter que virar investigador mesmo — disse, encerrando a ligação.
Na manhã seguinte, acordei meio perdido, vesti meu velho terno surrado e saí. Não tinha grana para outro, então era com ele que eu ia à luta. E agora, como detetive particular, minha missão era encontrar o responsável pelo crime.
Me tornei detetive porque, depois que certo fato me mudou, precisei me reinventar. Sempre tive boa percepção, então me lancei nesse mundo. As pessoas começaram a me contratar. A missão da vez era um caso aparentemente simples: uma mulher de 65 anos desconfiava que o marido de 68 estava sendo infiel. Era uma tarefa comum.
Mas nesse dia, a coisa foi diferente. Encontrei dois corpos. Um deles parecia o ex-companheiro de Marlene. Fui chamado à cena do crime e lá encontrei a policial civil Bárbara, a mulher mais fascinante que já vi na vida. Me aproximei e disse:
— Bárbara, acho que você devia me dar mais espaço para investigar.
Ela respondeu, sem paciência:
— A polícia vai cuidar disso. Você devia sair daqui agora.
— Você é incrível. Só me dá um pouco mais de tempo para investigar, e depois te pago um jantar.
Ela apenas me olhou. O que ela quer de mim? Eu sempre tentei fazer as coisas darem certo, mas só porque estou numa fase ruim, ela acha que pode me ignorar?
Preciso me mudar. Está tudo desmoronando aqui: o apartamento, as memórias, as amizades... Tudo. Não aguento mais essa vida, mas isso é outra conversa.