Pelos meus olhos
Ninguém sabe o que é viver
com o peso nos ombros,
não o peso do mundo,
mas aquele silêncio amargo
que preenche cada fresta da alma.
Os dias nascem, sempre iguais,
um brilho lá fora que não toca aqui dentro.
Os rostos que passam
são saudades de tempos distantes,
vozes que já não me alcançam.
E eu fico,
à sombra dos meus próprios olhos,
preso num reflexo que não reconheço,
um espelho que grita o que eu não posso dizer.
Há tanta raiva guardada,
mas ninguém enxerga os traços dessa fúria contida.
São gritos sufocados nas mãos
que trêmulas, seguram o que resta de sanidade.
Mas por que gritar?
Se não há quem ouça,
se não há quem entenda.
E o tempo, cruel, escorre entre os dedos.
Leva com ele o que eu poderia ser,
deixa apenas a sombra do que fui,
ou do que pensei ser.
Mas eu continuo,
de pé,
enfrentando a maré,
com os olhos cerrados,
esperando que talvez, em algum lugar,
haja uma quebra nesse ciclo,
um sentido que ainda não conheci.
Mas as noites são longas,
e o frio, mais profundo do que as palavras conseguem alcançar.
Eu olho para dentro,
em busca de algo que justifique,
um fio de luz que ainda me guie,
mas tudo é neblina,
um labirinto de memórias apagadas
e vontades que já não...