Mil Motivos
Naquela noite, quando olhou pela janela, viu o reflexo das luzes da cidade refletido nas poças de chuva. O asfalto, encharcado e cintilante, lembrava o caminho que ele percorrera até ali: sujo, molhado, cheio de buracos. O apartamento pequeno, a sala desarrumada, o cheiro de comida velha impregnado nas paredes. As luzes dos carros passavam rápidas, como se a vida lá fora corresse sem ele.
Ele acendeu um cigarro, apesar da tosse persistente que já o acompanhava há meses. Sentiu o gosto amargo do fumo na garganta, uma espécie de auto-sabotagem, uma punição cotidiana. Quanta coisa tinha dado errado... Os projetos que não saíram do papel, os empregos de merda, as mulheres que foram embora. Mil motivos para desistir, ele pensou. Cada um mais sólido que o outro, como se formassem um muro de concreto em volta do peito.
Lembrou-se das noites em que o sono não vinha, das garrafas vazias espalhadas pelo chão, das cartas de cobrança jogadas numa pilha em cima da mesa. Os amigos que sumiram, os pais que ele mal via. As promessas feitas e não cumpridas. O peso dos erros cometidos se acumulando em seus ombros, como uma mala que ele carregava há anos, cada vez mais pesada, sem saber por que ainda não a largou.
E ainda assim, lá estava ele, na porra da sala, olhando pela janela. Por quê? Talvez fosse a força do hábito. Talvez fosse a covardia de acabar com tudo. Talvez fosse apenas a teimosia. Uma teimosia burra, ele sabia, mas que o fazia acender um cigarro atrás do outro, tentando achar um sentido na fumaça que subia.
"Desistir não é pra gente", ouviu uma voz ecoando na cabeça, a voz rouca do pai, que agora vivia num asilo. "A vida é essa porra mesmo, mas a gente continua. Se arrasta, mas continua." Sempre o mesmo conselho, dado com um copo de cachaça na mão, as mãos trêmulas de um velho que também tinha mil motivos para desistir, mas que nunca o fez. Ele tinha inveja daquela teimosia no velho. Na verdade, odiava a teimosia de ambos.
Foi quando sentiu uma pontada no peito, um alarme que soava cada vez mais alto, o coração apertado, cansado de tanto lutar. Talvez a hora de desistir estivesse perto, pensou. A única certeza era que o fim chegaria uma hora ou outra, para todos. Mas, por enquanto, ele continuava.
Ele apagou o cigarro, se levantou e foi até o quarto. Não havia heróis na história, não havia finais felizes, apenas a rotina de continuar andando, um passo depois do outro. Sem grandes revelações ou epifanias. Ele sabia que a vida era uma longa fila, em que todo mundo esperava o seu número ser chamado. Mas enquanto isso não acontecia, ele ainda estava na fila. E isso era o bastante.
Ele deitou na cama e fechou os olhos. Mais um dia sobrevivido. Mais uma noite em que os mil motivos não foram suficientes. Amanhã talvez tudo fosse diferente, ou talvez não. E ele continuaria, sem desistir. Porque não sabia fazer outra coisa.