A Revolta do Amor

Lucas nunca foi de se meter em problemas. Até conhecer Mariana.

O amor não surgiu de repente. Foi como uma doença incubada, esperando o momento certo para se manifestar. Começou com um sorriso dela na praça, depois uma conversa despretensiosa sobre filmes de segunda categoria. Quando Lucas percebeu, já estava infectado.

Mariana era uma dessas garotas bonitas demais para serem felizes. Filha única de um empresário local, criada a pão de ló, mas sempre vigiada de perto. No fundo, era como um passarinho preso numa gaiola cara, mas ainda assim, uma gaiola. O pai dela, um homem de poucos amigos e muitos desafetos, era o tipo que preferia comprar afeto a conquistar.

Os encontros entre Lucas e Mariana foram se tornando frequentes, sempre às escondidas. Os dois se viam depois do expediente dele, no canto escuro de um bar que cheirava a cigarro velho e fracasso. Ela bebia gim com limão, ele, cerveja barata. Ali, na penumbra, trocavam segredos e sonhos sem futuro.

Lucas não era estúpido. Sabia que aquele amor não tinha futuro. Mas a vida, para ele, sempre foi uma sequência de não-futuros. Quando Mariana falava em fugir, em viver uma vida simples longe de tudo, ele só sorria. A realidade é uma coisa que Lucas sempre entendeu bem demais. 

Então, veio a tempestade. Não foi uma tempestade de verdade, mas o tipo que se forma dentro da gente. O pai de Mariana descobriu. Não precisou muito para que as coisas se dessem assim. Um espião aqui, uma frase solta ali, e o velho já sabia que a filha estava envolvida com um nada. Mariana apareceu na casa de Lucas com os olhos inchados de chorar e disse que tudo estava acabado. O pai dela ia mandar ela para uma cidade longe, onde ele tinha amigos influentes. “É para o meu bem”, ela disse.

Lucas ouviu aquilo em silêncio, mas por dentro a tempestade rugia. Ele se sentiu como um cachorro encurralado, daqueles que sabem que vão apanhar, mas ainda assim mostram os dentes.

Na noite seguinte, Lucas foi até a casa de Mariana. Sabia que era uma burrice. Mas ele era guiado por uma coisa que nem ele entendia direito, um misto de amor e ódio, uma necessidade de não se sentir derrotado.

Bateu na porta como se estivesse desafiando o diabo. O pai de Mariana atendeu. Olharam-se em silêncio, dois homens que sabiam exatamente quem eram. O pai dela tentou dizer alguma coisa, mas Lucas não queria conversa. Foi direto ao ponto, disse que amava Mariana e que não ia deixar que ninguém o impedisse de ficar com ela.

O velho riu. Um riso seco, carregado de desprezo. “Você é só um peão, meu caro. Peões não movem o mundo, apenas são movidos por ele.”

Mariana apareceu na porta, os olhos ainda vermelhos. Lucas estendeu a mão, como quem oferece uma saída, mas ela hesitou. 

O velho deu um passo à frente, e Lucas o empurrou. O movimento foi rápido, mas cheio de raiva contida. A tempestade dentro dele se tornou um furacão. O pai de Mariana caiu no chão com um baque surdo, a expressão incrédula. Lucas sentiu o gosto amargo da revolta na boca, uma mistura de sangue e derrota. Ele sabia que aquele gesto não ia mudar nada. Mas, pelo menos, era um gesto.

Mariana correu para o pai, gritando, mas ele não ouvia nada. Lucas saiu dali com os punhos cerrados, a revolta queimando o peito. Não olhou para trás. Sabia que o amor não vence o mundo. Mas, naquela noite, o mundo soube que, mesmo quando derrotado, o amor não se entrega sem lutar.


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