Pescoço
Das tantas coisas que eu quero dizer sobre a vida, a dança, a relação,
que escorregam entre os dedos como sabão no banho morno da manhã,
resta esse silêncio cheio de som —
feito concha encostada no peito, onde se escuta o mar de tudo que fomos.
Faço do teu pescoço minha morada
porque ali a pele fala antes da palavra,
porque ali o tempo esquece de correr,
e tudo que fui antes de te encontrar se dissolve em calor,
Teu cheiro é bússola,
teu toque, reza dita entre os lençóis,
e teu riso, esse riso…
me salva de cair das prateleiras internas onde guardei minhas fraquezas.
Fico ali, nesse abraço que me veste inteiro,
sabendo que amar é esse ato desajeitado de tentar alcançar o céu com os pés no chão,
de tropeçar na própria alma e ainda assim sorrir,
porque há colo, porque há dança, porque há nós.
E entre a vida, a dança e essa relação que se escreve com o corpo,
eu aprendo:
o amor não pede altura.
Só coragem de subir na cadeira e tentar.
E entre a vida, a dança e essa relação que se escreve com o corpo,
fico ali —
sem pressa de entender,
sem vontade de nomear.
Apenas respiro,
com a testa encostada na tua pele,
como quem, enfim, encontra
um lugar quieto dentro do movimento.