O Homem Que Conversava com a Chuva
A primeira vez que ele apareceu em minha porta estava chovendo. Não uma chuva comum, mas daquelas insistentes, finas, que parecem não cair do céu — parecem subir da terra, como se o próprio chão estivesse devolvendo algo que não consegue mais guardar. Ele não se apresentou. — O senhor escuta? — perguntou, antes mesmo de sentar. Observei seus olhos. Não estavam perturbados. Estavam exaustos. — O quê? — perguntei. — A chuva. Fiquei em silêncio por alguns segundos. — Sim. Estou escutando. Ele balançou a cabeça. — Não essa. A outra. Chamava-se Augusto. Quarenta e poucos anos, empresário conhecido na cidade, homem respeitado. Mas o respeito social nem sempre é reflexo de paz interior. Contou-me que, havia meses, sempre que chovia ele ouvia vozes misturadas ao som da água. Não eram frases claras. Eram murmúrios, como se várias pessoas conversassem ao mesmo tempo, sem permitir que ele entendesse nada. — Eu não sou louco — disse com firmeza, quase desafiando minha expressão. — Eu não disse que...