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o Silêncio Onde Eu Me Encontrei

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O Silêncio Onde Eu Me Encontrei (por um homem que abandonou o mundo para se reencontrar na natureza) Eu não fugi. Eu me dissolvi. Por anos, vivi na ilusão do necessário: a carreira que me moldava como barro seco, as telas que piscavam com promessas de pertencimento, as vozes que falavam alto, mas não diziam nada. Era como caminhar num mercado de almas onde todos negociavam aparências. E eu também negociei a minha. Aos poucos, perdi o som da minha própria essência. E quando não conseguia mais escutar a mim mesmo, decidi ir embora. Não por desespero. Mas por um chamado. Uma semente em mim — silenciosa, paciente — queria germinar. Ela não suportava mais os ruídos, as notificações, os julgamentos travestidos de opinião. A tecnologia não era o inimigo. Era apenas o espelho. E o que eu via refletido era uma humanidade intoxicada pela pressa, pela comparação, pela necessidade constante de validação. A maldade não era mais exceção — era padrão. E a compaixão? Uma lembrança tênue, quase mitológ...

O Homem Que Conversava com a Chuva

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A primeira vez que ele apareceu em minha porta estava chovendo. Não uma chuva comum, mas daquelas insistentes, finas, que parecem não cair do céu — parecem subir da terra, como se o próprio chão estivesse devolvendo algo que não consegue mais guardar. Ele não se apresentou. — O senhor escuta? — perguntou, antes mesmo de sentar. Observei seus olhos. Não estavam perturbados. Estavam exaustos. — O quê? — perguntei. — A chuva. Fiquei em silêncio por alguns segundos. — Sim. Estou escutando. Ele balançou a cabeça. — Não essa. A outra. Chamava-se Augusto. Quarenta e poucos anos, empresário conhecido na cidade, homem respeitado. Mas o respeito social nem sempre é reflexo de paz interior. Contou-me que, havia meses, sempre que chovia ele ouvia vozes misturadas ao som da água. Não eram frases claras. Eram murmúrios, como se várias pessoas conversassem ao mesmo tempo, sem permitir que ele entendesse nada. — Eu não sou louco — disse com firmeza, quase desafiando minha expressão. — Eu não disse que...

A Casa Onde Ninguém Dormia

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A primeira vez que ouvi falar daquela casa foi numa tarde abafada, quando o céu parecia baixo demais para quem já carregava peso suficiente nos ombros. — Dizem que lá dentro ninguém consegue rezar — comentou o homem à minha frente, os dedos trêmulos segurando o chapéu amassado. — Minha esposa tenta… mas as palavras travam. Meu filho não entra mais no próprio quarto. Não era a primeira história assim. Nunca é. Mas havia algo diferente na maneira como ele evitava olhar diretamente para mim — não era apenas medo da casa. Era medo do que poderia ser revelado. — E o senhor? — perguntei com calma. — Consegue permanecer lá dentro? Ele demorou a responder. — Eu… fico. Mas não fico sozinho. Não explicou o que queria dizer. Não precisava. Eu já conhecia aquele tipo de presença: não necessariamente um espírito, mas algo alimentado pelo silêncio, pela culpa, por sentimentos não resolvidos. Aceitei ir naquela mesma noite. A casa ficava afastada da cidade, cercada por árvores que pareciam sussurrar ...

Sombras e encruzilhadas

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Não foi meu nome que enfrentou a escuridão — foram os caminhos que atravessei. Houve uma noite em que bati à porta de uma casa antiga, chamada apenas para “ver o que estava acontecendo”. A família dizia ouvir passos no corredor, portas abrindo sozinhas, sussurros que vinham do teto. Não encontrei fantasmas à primeira vista. Encontrei medo. Um medo antigo, alimentado por brigas, traições, palavras que jamais foram perdoadas. Enquanto caminhava pelo corredor estreito, senti o ar pesar como se tivesse textura. Não era uma presença única — era um acúmulo. Pensamentos repetidos durante anos, mágoas fermentadas, culpas escondidas. A casa não estava assombrada por espíritos; estava saturada de emoções não resolvidas. Ali compreendi que a injustiça não é apenas algo que sofremos — é algo que também produzimos. Trabalhei naquela casa por horas. Orações baixas, imposição de mãos, reorganização do campo energético. Nada espetacular aos olhos externos. Mas ao final, quando o silêncio se assentou c...

Portas

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Você foi embora da casa de alguém que te ama muito e quebrou a confiança uma última vez. Eu estou com raiva porque está doendo e isso é coisa que não cabe conversa. Tinha muitas portas naquela maçaneta que você abriu, sem pudor, sem respeito.  E então você saiu e eu as fechei para que não doa mais quando eu quiser confiar que estará por nós mas não fica, não ficou. No fim palavras emocionadas na cabeça, boca e dedos lembram de nossas sonhos que você arrancou do meu coração e tirou de mim o direito de viver, de ser feliz com você. E que se foda o português porque estou puto. Quero te ver e não quero, quero te ter e não posso, não por mim, pois por você sempre terá a porta de saída.