Estou me recuperando
No começo, é tudo um vazio esquisito.
Você acorda e demora a entender que acabou,
e aí, quando cai a ficha, dói tudo de novo.
Fica aquele aperto no peito,
como se o mundo tivesse dado uma volta e te deixado de fora.
E as lembranças... meu Deus, são tantas.
Toda conversa, cada lugar que a gente foi,
até as coisas mais bobas viram uma espécie de fantasma.
E aí tem as fotos, né?
Nas redes, no celular, em todo canto.
Eu passo por elas, tento fingir que não vejo,
mas estou me recuperando.
Cada coisa que tenho lembra a gente.
Sentar no sofá, que passávamos as horas,
a cozinha, que virou o lugar preferido para nos agradar.
Tudo ainda está cheio de você,
até o silêncio.
Às vezes eu acho que vou te ver voltar,
que de repente a campainha vai tocar e você vai estar na porta, me olhando.
Mas não consegue me tocar.
E eu fico nessa, tentando não pensar,
mas estou me recuperando.
A galera fala que é só dar tempo,
que o tempo cura tudo,
mas eles não sabem o quanto é difícil.
Aquela mensagem de bom dia que não chega mais,
o som das notificações que me engana,
e a falta, que parece até uma presença,
que não vai embora.
Eu olho o celular,
procurando alguma coisa que eu sei que não estará lá, nunca mais.
Mas estou me recuperando.
Os dias passam devagar, como se fossem todos iguais mesmo com o mundo girando.
Eu tento me distrair, eu me distraio,
mas toda hora o pensamento vai direto pra você.
Seu cheiro ainda está em algumas coisas,
e, sem querer, eu volto para os momentos bons,
pensando no que poderia ter sido,
como seria se as coisas fossem diferentes.
Mas estou me recuperando.
Aos poucos, parece que a dor vai ficando menos intensa.
Não porque eu esqueci,
mas porque o coração vai se adaptando a ferida.
Eu já não fico vendo suas fotos o tempo todo mais,
mas ainda não consigo apagar, talvez apague de alguns lugares.
Mas agora deixo elas lá, meio que guardadas,
como se fossem parte de mim agora.
Mas estou me recuperando.
Acho que todo mundo passa por isso de algum jeito, né?
Vai indo devagar, como quem aprende a andar de novo.
A saudade não some,
mas a gente aprende a conviver com ela,
a deixar que fique sem machucar tanto.
O futuro ainda parece meio incerto,
e o passado, pesado.
Mas estou me recuperando.