Saudade doi nos dois mundos
Vejo nos olhos do meu pai o fim que se aproxima,
A passagem, essa velha conhecida, estende sua mão.
Entendo o ciclo, o fechar das portas,
Mas não há sabedoria que afaste a dor do adeus.
Como médium, transito entre os véus,
Converso com os que já partiram,
Enxergo o além com clareza que poucos têm,
Mas a verdade, nua e crua, é que nenhum saber
Diminui o peso de vê-lo assim, frágil,
À beira de deixar esse plano.
O espírito aceita a transição,
Sabe que o corpo é apenas vestimenta,
Que a vida segue em outros caminhos,
Mas a carne, essa, ainda sente o frio
Do momento em que o coração para.
A espiritualidade me dá suporte,
Mostra que o fim é apenas uma volta para casa,
Que há paz na travessia,
E que o sofrimento é breve,
Mas a consciência desse fato
Não diminui o vazio que deixa.
Vejo o destino se cumprir,
A roda girar mais uma vez,
E aceito, porque não há escolha.
Mas dentro de mim, algo grita,
Algo que é mais humano que espiritual,
Algo que se agarra ao presente,
Mesmo sabendo que o presente,
Como o corpo, é efêmero.
Tudo se transforma, sei disso,
E há beleza nessa constante mudança,
Mas neste momento, a beleza é difícil de enxergar.
O espírito, embora elevado,
Esta morando na matéria feita de carne,
E a carne, com sua finitude,
Sente a dor do desapego.
No fim, resta a fé,
Não como consolo fácil,
Com disse Chico, Saudade dói nos dois mundos.
Mas como verdade fundamental—
A vida segue, o espírito voa,
E eu fico, por enquanto,
Com a dor que também é parte do caminho.