A Vida de João
O sol já se despedia do asfalto quente, mas o calor ainda pesava nas ruas estreitas do centro. João se arrastava pelos becos, um cigarro pendurado no canto da boca e o paletó surrado nas costas. Ele era um desses sujeitos que a cidade engole e cospe sem piedade. Um homem invisível entre os prédios altos, sobrevivendo de bicos e esquemas que ninguém perguntava a origem.
No bar do Velho Chico, ele era mais um rosto entre tantos. A luz amarelada, o cheiro de cachaça barata e suor saturavam o ar. Sentado no canto, ele observava, quieto, os outros frequentadores. Gente como ele, que encontrava na bebida e nas conversas rasas uma fuga temporária da realidade.
Foi ali que viu Clarice pela primeira vez. Entrou no bar com uma segurança que desarmava qualquer um. Vestido vermelho, justo, revelando curvas que pareciam desenhadas à mão. Os cabelos negros, soltos, balançavam com uma sensualidade natural. Mas o que mais chamou a atenção de João foi o olhar dela. Um olhar duro, direto, como quem já viu demais e não se impressiona com pouco.
Clarice parou no balcão, pediu uma dose de uísque e acendeu um cigarro. Não olhou para ninguém, como se estivesse em seu próprio mundo. Mas João sabia que aquela frieza era uma armadura, a mesma que ele vestia todos os dias.
Decidiu se aproximar. Levou o copo de cachaça aos lábios, tomou um gole rápido e caminhou até o balcão. Ao lado dela, sentiu o perfume misturado ao cheiro de tabaco e suor. Não disse nada de imediato, apenas pediu outro copo ao barman.
— Tem fogo? — Ele perguntou, quebrando o silêncio.
Ela virou a cabeça, os olhos dele encontraram os dela, e por um segundo, ele se sentiu nu. Clarice tirou o isqueiro do bolso e entregou, sem dizer uma palavra.
João acendeu o cigarro e devolveu o isqueiro. Eles ficaram ali, lado a lado, sem trocar mais nenhuma palavra, apenas bebendo e fumando. O barulho do bar era um zumbido distante, como se estivessem isolados em uma bolha de fumaça e álcool.
Depois de alguns minutos, Clarice quebrou o silêncio.
— O que você quer? — A voz dela era baixa, quase um sussurro, mas carregava uma firmeza que fez João engolir seco.
Ele sorriu de canto, apagando o cigarro no cinzeiro.
— Nada. Só companhia.
Ela o olhou de novo, dessa vez avaliando, como se tentasse decidir se ele valia o tempo dela.
— Compania, hein? — Ela deu uma risada seca, que não chegou aos olhos. — Não sou de papo, sabia?
— Nem eu. — João respondeu, olhando para o copo vazio.
Clarice acenou para o barman, pedindo outra dose. Quando o uísque chegou, ela virou o copo de uma vez e então se levantou.
— Vamos. — Ela disse, sem olhar para ele.
João hesitou por um momento, mas algo nos olhos dela o puxava, como um ímã. Pagou a conta rapidamente e a seguiu para fora do bar.
Nas ruas, a noite já caíra de vez, e a cidade, mesmo envolta em escuridão, ainda fervilhava. Eles andaram lado a lado, sem trocar palavras, sem perguntar para onde iam. O silêncio entre eles era confortável, como se ambos soubessem que as palavras estragariam o momento.
Chegaram a um hotel barato, onde as paredes descascadas e o cheiro de mofo não pareciam incomodar. Clarice pagou pela chave e subiu as escadas com a mesma determinação com que havia entrado no bar.
No quarto, a luz fraca revelava um espaço pequeno, com uma cama de casal e lençóis duvidosos. Ela se aproximou da janela, acendeu outro cigarro e olhou para a cidade, agora iluminada por postes e faróis.
João a observava em silêncio. Clarice era um mistério que ele sabia que nunca desvendaria por completo, mas naquele momento, não precisava.
Ela se virou para ele, o olhar ainda duro, mas com uma faísca diferente. Aproximou-se, lenta, sem pressa, como se estivesse testando a resistência dele.
Quando finalmente o tocou, foi com a delicadeza que ele não esperava. As mãos dela deslizaram pelo rosto de João, como se quisesse memorizar cada traço, cada imperfeição. Não houve palavras, apenas um acordo silencioso de que, naquela noite, eles não seriam as mesmas pessoas que eram do lado de fora.
Seus corpos se encontraram, inicialmente com hesitação, mas logo o calor tomou conta. Foi um encontro urgente, quase desesperado, como se ambos precisassem provar para si mesmos que ainda estavam vivos. Clarice o conduzia com firmeza, mas sem pressa, como se quisesse prolongar aquele momento o máximo possível.
Quando tudo terminou, não houve declarações, nem promessas. Apenas o cansaço compartilhado e a respiração pesada. Clarice apagou o cigarro, deitou-se ao lado dele, e por um momento, permitiu-se fechar os olhos.
João a observou em silêncio, sabendo que, ao amanhecer, ela partiria sem olhar para trás. E ele ficaria ali, naquele quarto barato, com o cheiro dela impregnado na pele e a certeza de que alguns encontros, por mais intensos que sejam, estão destinados a desaparecer com o sol.
Na manhã seguinte, o quarto estava vazio, exceto pelo cheiro de cigarro e a sensação de que algo havia mudado. João se levantou, vestiu o paletó e saiu para as ruas, onde a cidade já acordava para mais um dia. E como sempre, ele se misturou à multidão, invisível novamente, mas com a lembrança quente de uma noite que jamais esqueceria.